O causo do ladrão que não tinha mais o que roubar

Ladrão: Ei, você! Celular, carteira e relógio aqui na minha mão, já!

Mulher: Putz seu ladrão, desculpa, mas você chegou tarde. Já me assaltaram hoje cedo lá no Largo da Batata.

Ladrão: O celular era iPhone?

Mulher: O 5. Aliás, 5 S. E não tinha nem 3 meses.

Ladrão: Que merda! Eu precisava de um pra bater a minha meta na quadrilha. Bom, então manda o óculos de sol, caceta!

Mulher: Ixi, esse aí foi na semana retrasada. Um trombadinha arrancou do meu rosto enquanto eu tomava sol no Ibirapuera. 

Ladrão: Aliança?

Mulher: Mês passado, quando eu estava parada no trânsito na Av. Paulista. E olha que era uma vagabunda porque meu marido é um mão de vaca. Deu até dó do bandido.

Ladão: Aê dona, tá dificulitando as coisas pro meu lado, mano… pulseira, brinco? Não tem nem pingente brega do casal de filhos?

Mulher: Não. Isso aqui é São Paulo, amigo. Quem anda com jóias?

Ladrão: É, tem isso aí memo… mas e aí dona, como é que eu fico?

Mulher: Ah, posso te dar um conselho? Pensa numa profissão cujo mercado esteja menos saturado. Ladrão tem um em cada esquina, vai contra a lei da oferta e da procura. Escolhe uma coisa com menos concorrência. Cê tá na contramão dos acontecimentos. O lance agora é foder estatal, é lá que tá o dinheiro.

Ladrão: É dona, aí a senhora falou umas verdade. Mas a panela lá é fechada e a fila tá grande pra entrar nessa quadrilha. Acho que tô preferindo trabalhar autônomo que não desconta do imposto de renda. 27,5% fica pesado até pro crime, truta.

Mulher: Tadinho! Tem razão. Então vamos fazer assim: leva esse sanduíche que eu ia comer no almoço pra você não sair de mãos abanando. Viver nesse país me deu uma úlcera, não vai nem fazer diferença ficar sem o meu lanche.

Para ler ouvindo Titãs – Aluga-se

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Un coeur pacifique

Mais vale um coração vazio no peito do que outro, completamente espatifado pelo chão.

Para ler ouvindo Selah Sue – Raggaemuffing

O causo do quarentão partidão que virou sapo

Se conheceram em um feriado, na praia.
O beijo havia encaixado perfeitamente e ela, que “ouviu sininhos”, tinha a certeza mais plena e  absoluta de que ele era a tampa de sua panela, o chinelo velho para seus pés cansados. Como se isso não fosse o suficiente, Flavio, empresário de sucesso, era lindo e um partidão.

Foram 3 longas semanas de conversinhas vazias no Facebook até que, quando ela estava pronta para desistir, finalmente veio o convite para um jantar romântico.

Extasiada, Debi tratou de tomar todas as providências cabíveis para que a noite fosse perfeita, inesquecível.

Pediu dispensa no trabalho, alegando que a avó estava doente, e usou a tarde livre para dar um trato no visual.

No cabeleireiro, fez escova (r$ 45,00), a mão (r$ 25,00), o pé (r$ 35,00) e depilação (axilas r$ 15,00, virilha íntima cavada r$ 45,00 e meia perna r$ 20,00).

Saindo do salão, foi a uma clínica de estética para uma sessão de drenagem linfática (r$ 90,00) e, de lá, seguiu para o shopping, onde comprou uma lingerie de renda super sexy (r$ 220,00) e algumas flores (r$ 35,00) para enfeitar a casa, caso a noite terminasse em seu apartamento.

Foram, ao todo, r$ 530 investidos naquele cara, naquela noite. Mas tudo bem. Mesmo estando dura e usando a grana de suas economias, ela tinha certeza de que o investimento valeria a pena.

Flavio passou para pegá-la com 45 minutos de atraso. Ela relevou.

Foram a um restaurante francês chiquérrimo, sugestão dele.

Além do couvert, de entrada ele pediu escargot. E um Pinot Noir, ­caro pra dedéu, para acompanhar o jantar.

Debi, completamente apaixonada, só pensava em sair dali e dar, loucamente, para aquele que, com certeza, era o homem de sua vida.

Ele perguntou se poderia escolher o prato dela. Debi achou fofo e concordou.

“Garçom, para ela o ravioli de lagosta com azeite de trufas. Para mim a massa com tinta de lula e camarões VG. Ah, e mais um vinho, por favor”.

Debi passava seus pés nas pernas de Flavio enquanto ele devorava a sobremesa, um mille-feuilles com favas de baunilha.

A conta chegou. Com todo o seu charme de quarentão esportista, Flavio colocou seus óculos e analisou o papel. Ele mexeu um pouco os olhos, como quem faz contas e, em seguida, dobrou as hastes dos óculos e os guardou de volta no bolso da camisa que vestia até que sacou a carteira do bolso da jaqueta e puxou um cartão de crédito, platinum mega ultra vip e o escambau.

Debi, que assistia a cena bêbada e fogosa, achou tudo muito sexy.
Não tinha jeito, ele era o que ela sempre sonhou e não dava mais pra esperar; ela precisava agarrar Flavio naquele momento.

O garçom se aproximou com a máquina do cartão.
Debi, mais que depressa, pegou sua bolsa para poder levantar, sair de lá o mais rápido possível e se entregar aos braços fortes e torneados de Flavio.

Observando ela agarrar a bolsa com tanto afinco, Flavio diz: “Debi, já que você insiste, a sua parte dá r$ 448”.

Puta da vida, ela pagou sua parte e disse que estava com dor de cabeça.
Flavio ainda se ofereceu  para levá-la, mas ela não aceitou.
E Debi ainda teve que desembolsar mais r$ 37,00 para pegar um táxi até sua casa.

Para ler ouvindo Wild Belle – It’s too late

Into your arms

Foi tudo culpa dos seus braços.

Prestei atenção neles por um momento, quando a timidez me venceu e faltou coragem para continuar a conversa olhando nos teus olhos.

Foram esses braços que me fizeram sentir vontade de estar mais perto, para você me alcançar e me tocar.

Eles, os teus braços, anunciaram que eu me apaixonaria, perdidamente, pelo resto de você.

E foi no momento em que eu finalmente estive entrelaçada entre eles que percebi: dali pra frente, tudo seria diferente.

Para ler ouvindo Lemonheads – Into your Arms

17 DE JUNHO. O DIA EM QUE TUDO MUDOU.

Ok, agora todo mundo já sabe que o povo está bravo e que tem força sufiente pra mudar tudo. E isso é maravilhoso, é absolutamente espetacular.

Mas tem uma pergunta sem resposta que ecoa na minha cabeça há dias: O QUE VEM AGORA?

Não temos uma liderança, não temos propostas, não temos um partido de confiança. Não temos sequer uma causa urgente, mas sim dezenas delas.
O que é prioridade? Quais serão so próximos passos?

Podemos derrubar a Dilma, o congresso, os ministérios, as lideranças do Banco Central. Mas e aí, quem vamos colocar no lugar? Se a Dilma cair, vamos ter que engolir o bandido do Temer?

Podemos até não pagar os 20 centavos, mas vamos continuar pagando impostos absurdos? Podemos até fazer com que a Copa seja cancelada, mas esse dinheiro desviado vai voltar pros cofres públicos para ser usado da maneira correta?

Tá tudo ai, a gente mostrou que tem voz e que “o gigante acordou”, como gritávamos ontem nas ruas. Mas peraí, quem é a voz, a cabeça por trás de tudo isso?

Tenho medo de não aparecer um “Messias” para mostrar o caminho. E tenho mais medo ainda de aparecer algum oportunista, ou um grupo deles, e nos usar como uma imensa massa de manobra ufanista para subir ao poder.

O que será dos partidos políticos? o que será dos empréstimos internacionais que alguns governos, como o de São Paulo, recebem do Banco Mundial?

Ontem as pessoas vagavam seguindo a sua intuição, mas não tinha um líder, um megafone, uma voz mais forte na multidão. Todo mundo estava lutando, mas um pouco perdido, um pouco sem saber o que fazer.

E eu me encaixo nisso tudo: eu quero muito lutar, mas com quem e exatamente pelo que?

E é isso: a gente tem a faca e o queijo na mão. A gente só não tem um prato para apoiar essa deliciosa sobremesa.

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Para ler ouvindo uma até meio brega, das antigas: Ivan Lins – Um novo tempo

 

NA MINHA HUMILDE OPINIÃO

aos alienados, retrógrados, cretinos e imbecis com quem eu tenho tido a infelicidade de conversar, apenas um desabafo:

como a maioria de vocês, quando eu nasci, o brasil ainda era um país que sofria com a censura e com a ditadura militar. figueiredo era o presidente e faltavam 3 anos até a transição para uma suposta democracia.

ainda criança vi, pela televisão, a primeira eleição da minha vida. e a sequência dessa transmissão histórica, que para mim foram as explicações da minha avó (filha de russos imigrantes, líder de um grupo que praticava benemerência mundo afora, advogada e grande intelectual), sobre o que era um estado de direito. eu tinha muito pouca idade, mas me lembro do esforço dela tentando explicar para uma criancinha sobre os direitos que as pessoas deveriam ter por serem cidadãs de um país, a igualdade e tudo o que mudaria (ou deveria mudar) dali pra frente. também me lembro do meu interesse em compreender o máximo que eu podia absorver e do quanto aquelas palavras ficaram dentro de mim para sempre.

mas a alegria não durou muito. dias depois a nação viu cid moreira anunciar, em rede nacional, a morte do tancredo neves. juro que nunca me esqueci dessa cena.

eu vi sarney, collor, itamar, fernando henrique, lula e dilma subirem no palanque. e eu também vi cada um deles (menos fhc) meterem os pés pelas mãos, depois meterem os pés que meteram pelas mãos em escândalos, novas taxas, novas políticas, mudanças cambiais, indicações de novas cabeças para o banco central e todo aquele resto que todo mundo sabe e está mais que careca de saber no que deu.

os presidentes mudaram, os partidos mudaram e os tempos mudaram. mas, o que nunca mudou, foi o desconto de 28% no holerite de quem trabalha. os impostos absurdos que pagamos por tudo o que consumimos e o descaso com o nosso suor e trabalho duro, sendo jogado ao vento com a inflação que não para de subir graças à injeção de dinheiro que o país recebeu quando os fofinhos de brasília resolveram subir seus salários sem consultar ninguém. quer dizer, comigo eles não falaram, e com você?

você, alienadinho, riquinho, egoistinha, ainda não entendeu o que eu tô falando? então presta atenção: todo santo mês eu preciso tomar um remédio (não disponível no sus) que, com desconto do laboratório e do plano de saúde (porque eu tive a sorte de nascer numa família que me deu oportunidades de estudar, por isso posso me dar ao luxo de pagar um plano de saúde), custa r$ 300.

sabe o que isso quer dizer? que dessa quantia absurda, cerca de r$ 102 vão pro nosso sócio, o governo, aquele mesmo que não garante que eu tenha acesso a um sistema de saúde decente.
e olha que eu não vou nem entrar no mérito dos mais de 80% da bebida alcoólica nem dos alimentos, que recebem tributação entre 16 e 40%.

também não vou entrar no assunto violência, calamidades públicas como deslizamentos de terra e enchentes, as quantias astronômicas que já gastei pagando galvanização dos pneus do meu carro por conta dos buracos da cidade, ipva, iptu, inss, pis, cofins, darf, ir, o preço dos pedágios das estradas e afins.
todo esse dinheiro que o governo arrecada nas minhas costas, faz com que eu deixe de comprar um monte de coisas e tenha muito menos conforto do que eu poderia.

desde as diretas já e do impeachment do collor, eu não via o povo indo às rua.
quer dizer, o povo foi sim às ruas, mas  pela parada gay, pela marcha da maconha, pelo ayrton senna ou quando o brasil ganhava alguma copa do mundo.
mas em todo esse tempo nunca, jamais para lutar por seus direitos, no plural. direitos como reinvindicar por justiça, por menores tarifas, por honestidade e por mais respeito da parte dos 3 poderes em relação a nós. enfim, se manifestar e protestar, atos que, por sinal, estão previstos na nossa constituição.

faz 30 anos que eu espero por esse momento. faz mais de 30 anos que eu sonho em viver em um país justo, onde as liderança ouvem o povo e mais, um país onde eu me sinta incluída na tomada de decisões.
faz décadas que o brasil merece mudar e que a gente merece olhar para a nossa bandeira e ter o direito de acreditar nela e ser otimista.

sobre esses “atos de vandalismo”, os únicos sentimento que eu posso manifestar são emoção e euforia.
se você quer saber, estou aplaudindo de pé essas pessoas, esses heróis, que estão dando, literalmente, a cara a tapa por um bem maior. e esse bem maior não são 20 centavos. esse bem maior e um país mais justo para mim, pra você e pros nossos filhos.

em 1789 estava tudo errado na frança. até um dia que o povo cansou e foi lá, tomar a bastilha. e, pensando bem, até que não seria nada mal ver todo mundo invadindo brasilia e dando o mesmo fim que teve maria antonieta para alguns dos nomes que eu citei lá em cima.

“se o preço não baixar, a cidade vai parar”, dizem os manifestantes. e tem mais é que parar mesmo. parar, admirar e reverenciar aqueles que estão nessa guerra por todos nós.

POWER TO THE PEOPLE, PORRA!!!! segunda eu tô lá no largo da batata. e você, vai continuar gritando no facebook e esperando que o mundo mude da tela do seu computador?

#prontofalei

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Esse post não tem música. Prefiro fazer o meu minuto de silêncio pela deplorável ação da polícia.

1980

Viver é colecionar saudades.

Não apenas saudades. Também é colecionar pessoas, lugares, momentos, músicas, filmes e livros.

Viver é sentir falta de tudo e todos que já foram. E sentir mais falta ainda do que está por vir.

Viver é saber que hoje choveu, mas amanhã fará sol.

Para ler ouvindo Cássia Eller – All Star