*Carta para Dona Lais

Querida Dona Lais, como tem passado?

A senhora ainda faz aquele seu famoso bolo pão-de-ló com recheio de goiabada que todo mundo fala tanto? E aquele seu macarrão al pomodoro tão famoso com os amigos do Bruno?

E Dona Lais, me conte: como vai o Sr. Jaime, seu marido? Ele se recuperou da ponte de safena? Soube que a família sofreu muito, não é? Queria poder ter ajudado mais, mas achei que seria inconveniente.

Dona Lais, outra coisa, preciso lhe dizer que na formatura da Sandrinha a senhora estava maravilhosa com aquele vestido vermelho. Eu vi as fotos no celular do Bruno e achei que os quatro estavam realmente deslumbrantes.
O Bruno de terno  fica charmoso, não é? Ah, a senhora sabe, ele tem aquela altura e aquele porte que deixam qualquer mulher maluca. Isso sem falar naqueles olhos verde escuro que estavam combinando com as listras da gravata.

Dona Lais, já que falamos sobre o Bruno, tem umas coisas que eu gostaria muito de comentar com a senhora. Sabe o que é? Ele andou com umas manias chatas de não comer salada. Também estava muito relaxado em relação a aparência.

Eu tentei viu, Dona Lais, tentei mesmo, mas não adiantou. Eu ficava pensando em toda a confiança que a senhora depositou em mim para cuidar dele e fiz tudo que pude, mas ele nem encostou na abobrinha e na cenoura, não teve jeito. Bom, acho que a senhora sabe bem o filho que tem…

Dona Lais, peraí, acabei de me tocar, que não me apresentei!

Me perdoe. Imagino que, a essa altura, a senhora esteja se perguntando quem sou eu.

Prazer, sou a Juliana.

Juliana Santos, advogada, 31, nascida em Santos mas moradora de São Paulo há seis anos. Olha Dona Lais, sou de uma ótima família, isso eu posso te garantir. Meu pai trabalha com comércio e minha mãe é dona de casa. Tenho um irmão mais novo, o Beto. Ele está muito bem, tem um site de comércio na internet que cresce 11% ao ano. O Beto está noivo, casa ano que vêm com uma menina ótima de Sorocaba.

Acho que talvez a senhora já tenha ouvido falar de mim… pelo menos uma vez, uma única vezinha, quem sabe.
Eu sei que nunca chegamos a nos conhecer, mas sei também que um dia qualquer, provavelmente numa segunda-feira, o Bruno tenha falado sobre mim. Mesmo que tenha falado assim, en passant.
Ok, talvez nem falado, só citado o meu nome como quem conta quem estava em uma festa… pelo menos isso. Não?

Olha Dona Lais, eu só queria dizer que ensaiei muito a nossa apresentação. Eu quis muito fazer parte da sua família, trocar receitas com a senhora e participar das macarronadas de domingo. Eu ia conseguir Dona Lais, ia mesmo.
Acontece que o Bruno não consegue ver a sorte que teve em me conhecer. Ele é homem, né… e homem não tem esse sexto sentido que a gente tem. Eu sei que era a mulher da vida dele, já ele acho que ainda vai levar um tempo para perceber. Enfim, ele só tem 35 anos, está bem naquela idade de curtir a vida, não é verdade? Afinal, que homem hoje em dia sonha em se casar tão cedo? Eles tem medo de mulheres como nós, não é verdade? Saem logo correndo quando encontram uma assim: decidida, capaz, auto-suficiente!

O pior é que ele nem imagina o que perdeu. Sabe Dona Lais, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar e, certamente, não existem duas mulheres como eu. Mas tudo bem, Dona Lais. Eu vou achar outra pessoa, um cara bem melhor e, infelizmente, outra sogra. Só fico chateada porque eu sei que ia fazer seu filho feliz. Que ia fazer com que ele comesse salada todos os dias. Enfim Dona Lais, eu era a pessoa certa. Sei também que nós duas seriamos uma dupla genial! A senhora podia ligar para ver se ele precisava de alguma coisa pela manhã e eu pela tarde. Assim o Bruninho nunca ia ficar sem um agasalho quente ou sem um lanchinho.

Ah, quer saber Dona Lais? Seu filho é um burro! Um cretino imaturo e mimado. E a culpa é da senhora que não deu palmadas quando era pequeno. Não me leve a mal, mas eu sei que a senhora concorda comigo. Olha, cada coisa que se eu fosse te contar a senhora ia se enfurecer, viu. Galinha, isso sim!

Desculpe Dona Lais, mas no final acho que me livrei de uma boa!

Dona Lais, de qualquer modo, muito prazer.
Fico chateada que nossa apresentação não tenha sido ao vivo.
Mas quer saber? Agora eu vou tocar a minha vida, o Bruno nunca me mereceu!

Um abraço,
Juliana

PS- espero sinceramente que um dia eu ainda venha a ser sua nora.

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