Faça o que eu digo não faça o que eu faço

Quando eu nasci, meu pai fumava 3 maços de cigarro por dia e minha mãe, mais contida, um e meio. Eu e minha irmã mal acordávamos para ir para a escola e – pimpa! – já tinha fumaça na nossa cara. Era o começo dos anos 80 e as pessoas fumavam no avião, dentro do cinema, nos shoppings, nos restaurantes, nas festas de criança. Fumar era sempre bem-vindo e permitido.
O cigarro não era esse inimigo tão combatido que é hoje. Simplesmente era assim: as pessoas viviam num mundo de glamour, cheio de cowboys, pois era uma questão de bom senso (se você tá na casa dos 30 pra cima, entendeu a piada).
Aconteceu que, pouco antes deu fazer sete anos, meu pai pegou uma tuberculose gravíssima e passou mais de um mês internado no hospital.
E foi ai que ele descobriu que, por causa do vício, seu pulmão já estava com menos da metade de sua capacidade elástica. Ele tinha 39 anos e nunca mais colocou um cigarro na boca.
A minha mãe demorou um pouco e precisou de uma suspeita de câncer para parar. Mas me lembro muito dela de noite, pendurada no telefone, fumando um cigarro atrás do outro. E ela tinha uns trejeitos, fazia uns movimentos com as mãos. Pra falar a verdade, era feminino e charmoso.
Deve ter sido por isso que, quando eu tinha 11 anos, comecei a roubar cigarros da bolsa dela. O lance era se trancar no banheiro e ficar na frente do espelho, imitando minha mãe e todos os adultos que passavam na TV.
Quando eu tinha 15 anos fui viajar no carnaval com um grupo de uns 20 amigos. E a gente jogou muito baralho, fez muito churrasco, conversou até altas horas e foi em muita festa a fantasia. E tudo isso sempre, claro, fumando. E aquelas montanhas de cigarro que nenhum pai imaginava estar em nosso poder, acabou depois de 3 dias. E foi lá naquela fazenda, no dia seguinte do termino trágico que, depois de comer um saco inteiro de sonho de valsa, eu descobri que estava nervosa, irritada, ansiosa e com dor de cabeça. Era nítido que, daquele momento em diante, eu estaria fadada a viver até os dias de hoje em um relacionamento que me dá muito prazer mas, ao mesmo tempo, me causa uma culpa doloroso e sempre muito medo.
Bom, você deve estar se perguntando porque raios eu estou te contando tudo isso que, ao meu ver, é tão desinteressante. Deixa eu te falar então do que me aconteceu semana passada.
Liguei para um grande amigo e o convidei pra passear no bairro da Liberdade.
No começo da nossa jornada fumei o único cigarro que tinha na bolsa (eu nunca compro muitos maços porque digo para mim mesma todo dia quando acordo que vou parar. E nunca funciona). Três horas depois, com muitas compras e a barriga cheia de sushi, veio aquela vontade arrebatadora de dar umas tragadas. E começou a nossa peregrinação por uma banca de jornal. Tivemos que sair de lá para encontrar o meu cigarro nos Jardins, porque eu sou uma fumante fresca que só fuma uma marca específica.
Bom, pra resumir e finalmente chegar no clímax desse blá blá blá, assim que eu paguei meu maço, dei um passo pra trás do balcão da banca de jornal e comecei a rasgar o plástico da embalagem. Foi nesse momento que dois garotos se aproximaram da moça de quem eu havia acabado de comprar e pediram:
– Tia, me vê um maço de Lucky Strike, por favor!
Quando eu ouvi aquela vozinha desafinada, nem fina nem grossa, juro, não aguentei. Olhei para trás e, ao constatar o que temia, voltei a passos largos para o balcão.
Perguntei quantos anos os moleques tinham. O menininho maior olhou pra cima como que procurando uma resposta. Mexeu os olhos, colocou a mão no queixo e, depois de uns 4 segundos, com a mesma obediência das crianças que ainda não tem o direito de não responder a pergunta de um adulto, disse:
– A gente tem 17, tia!
Não acreditei. Não tinha como acreditar. Eu tenho 1,60m e ele era menor que eu! Aquele pivete deveria ter no máximo uns 13 e o amigo uns 14.
E foi ai que meu instinto maternal falou mais alto (porque querendo ou não, se eu tivesse sido uma adolescente desatenta, poderia tranquilamente ser mãe de um deles). Tirei o cigarro da mão dele, devolvi pra mulher da banca.
– Escuta, você não pode vender cigarro pra esses meninos. Eles são menores de idade, você não está vendo?
E na maior cara de pau a moça respondeu:
– E dai? Nem eu nem você não temos nada com isso…
– Como eu não tenho nada com isso? Você está cometendo um crime, isso ai dá cadeia, minha amiga!
E olhei bem nos olhos dos guris e, como uma adulta das mais chatas e metidas disse:
– Vocês vão estragar as suas vidas do mesmo jeito que eu tô estragando a minha!
Eles, óbvio, deram de ombros e acharam que eu deveria ser alguma doida e mal comida, exatamente como a gente falava das professoras chatas que nos passavam sermão durante a aula.
Entrei no carro furiosa, batendo porta, e pensei que deveria chamar a polícia. Depois pensei que tinha que filmar com o celular e fazer uma denúncia na internet. Pra falar a verdade, cheguei até a pensar que deveria segui-los e dedurá-los para as mãe suas mães, que tomariam uma providência e salvariam suas vidas.
Enfim, pensei mil coisas até que, finalmente, meu amigo me disse que eu não tinha moral para pensar nem fazer nada, afinal eu mesma era uma fumante.
Mas ainda assim eu me atrevi a pensar mais uma vez e ainda não consegui decidir se eu e você, que temos mais experiência e já erramos mais, temos a obrigação cívica e humana de cuidar dessas crianças.
Ou será que, no final das contas, eles tem o mesmo direito de fazer a merda que quiserem com a vida deles, exatamente como nós tivemos?
Acredita que, mesmo me sentindo de fato uma velha mal comida, até agora eu não consegui achar uma resposta?

Para ler ouvindo The Ramones – Teenage Lobotomy

5 responses to “Faça o que eu digo não faça o que eu faço

  1. Se eles fossem adultos, teriam o direito de fazer a besteira que quisessem com a própria vida.

    Não são.

    Acho que deveríamos ser menos complacentes com os jovens. A diferença entre ser adulto e ser criança é que você paga as consequências dos seus erros (perda da capacidade do pulmão, você sabe o que isso significa, né?).

    Infelizmente, a grande maioria das pessoas acha chato, careta, idiota mesmo tentar educar. E depois de adulto, acha ruim não ter sido educado antes.

    Ciclo vicioso, nunca melhor dito.

  2. ai ale… sei lá. só sei que dói o coração ver esse povinho sendo tão cretino quanto eu fui.

  3. Eu sei que dói.

    Deveria haver alguma lei que impedisse os menores de idade de comprarem cigarro, álcool, revista de mulher pelada.

  4. acho que esse problema vai mais além. é o “not my problem” de todo brasileiro (e digo isso porque acho que em outros lugares do mundo isso não acontece).
    fumar não só faz mal pros meninos. faz pra quem está em volta também. a gente sabe disso, mas o rabo preso e o not my problem nos impedem de reclamar. e não devia ser assim.

  5. sabe quela, eu fumo, ok, todo mundo sabe disso.
    mas eu NUNCA fumo na frente de uma crianca pequena, serio mesmo.
    meus priminhos de 6 meses, 5, 7 e 10 anos não tem a mais vaga idéia que eu seja fumante. e eu acho que todo mundo deveria fazer isso porque eles começam nos imitando.😦

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