A lição de moral do gajo do Porto

Durante um curto espaço de tempo vivi em Madri, Espanha.
Fui parar lá para fazer uma especialização na minha área e, por sorte, acabei conhecendo pessoas especiais dentro e fora do curso.
Acontece que, no meio todas essas pessoas, conheci um português chamado Henrique.
(Não, não seu cabeça suja, essa história não é o que você está pensando!).
Henrique era um cara mais quietão e acabou se tornando um grande amigo. Não um grande amigo daquele que a gente fala todos os dias, mas um daqueles grandes amigos que a gente vai perdendo o contato mas, mesmo assim, recebe notícias de 3 em 3 anos e fica com uma lágrima presa no canto do olho por causa da saudades que aperta e da lembrança de um tempo, de uma idade e de um momento que não vai mais voltar.
Na época em que nos conhecemos eu devia ter uns 26 anos e ele 31. Eu fazia o curso de aperfeiçoamento de redação publicitária e ele direção de arte. Assistíamos a muitas aulas juntos e, como ele era o único da sala que falava português (e meu espanhol ainda não era lá essas coisas), ficamos bem amigos.
Henrique era casado e, para realizar seus sonhos profissionais, havia deixado a mulher, uma psiquiatra chamada Rita, na cidade do Porto, onde viviam.
Henrique e Rita se falavam diariamente, via Skype, e haviam acordado que ela pagaria as contas da casa com o que recebia de seus pacientes. A ele caberia pagar o curso (que não era barato) com suas economias.
O trato tinha deixado a vida apertada para ambos, mas ela seria capaz de fazer qualquer coisa por ele e vice versa. Digo isso porque, mesmo sem tê-la conhecido, tive a oportunidade de vê-los ao telefone e o amor, respeito e cumplicidade eram nítidos.
Como eu disse, nunca conheci a Rita, mas posso garatir que ela era uma pessoa tão incrível e especial quanto ele.
Conforme o curso foi avançando, Henrique começou a receber propostas de trabalho em diversas agências espanholas. Não eram propostas incríveis, mas qualquer uma delas daria uma folga para a vida apertada a base de sanduíches que ele levava.
Acontecia que, como ele já tinha uma boa experiência no mercado português, nunca aceitava nenhuma vaga.
Cheguei a brigar com ele diversas vezes .
“Gajo (eu o chamava assim enquanto ele me chamava de carnavalesca), têm vaga caindo do céu pra você e cê fica deixando passar? Não faz isso, aceita uma, pô!”. Ele, sempre pacientíssimo, rebatia com um sotaque que eu demorei semanas para entender: “pois vou aceitar quando for em alguma agência que valha a pena!”.
Não adiantava nada. Eu não conseguia entender e, acima de tudo, mesmo sem ter nada a ver com a história, tomava as dores da Rita. Achava que era perda de tempo, egoísmo com a esposa e, acima de tudo, um sonho inútil da parte dele.
Ele nem me dava bola e persistia com seu voto de pobreza e celibato à distância enquanto esperava e batalhava dia e noite para alcançar sua meta.
Em setembro daquele ano o curso acabou e eu voltei para a minha vidinha no Brasil.
Por algum tempo mantivemos contato semanal e, sempre que nos falavamos, a notícia era a mesma: o gajo continuava desempregado.
Isso me preocupava por que ele tinha uma situação muito diferente da minha, afinal, enquanto estava lá sem a menor pretensão de trabalhar e com dinheiro folgado para os meus meses de aluguel, baladas e até comprinhas, os euros que ele havia juntado em uma vida inteira começavam a se esvair com contas do apartamento, metrô, alimentação e, raramente, uma cerveja.
Em nossos e-mails eu pedia que ele colocasse os pés no chão, que pensasse em Rita. Mas ele sempre me dizia que estava atrás de um sonho e que aquilo tudo era um investimento para o futuro.
Um dia, mais de um ano depois do meu regresso, estava na agência trabalhando quando meu celular apitou indicando uma mensagem.
“CARNAVALESCA!!! MSN!!! AGORA!!!”.
Me loguei e entrei correndo. Uma janela com o nome de Henrique pulou antes que eu pudesse lembrar de como era a vida antes do celular e da internet.
“Carnavalesca! Tu não vais acreditar! Estou a trabalhar na Wieden+Kennedy Amsterdam! Cá estou como director de arte freelancer e minhas idéias tem feito um bocado de sucesso. És um trabalho temporário, mas já me pagas de volta tudo que eu gastei na Espanha e eu ainda tenho a chance de criar para muitos prêmios!”.
Fiquei ali, pasma na frente da tela. Reli a mensagem umas 3 vezes. Afinal a Wieden+Kennedy* é uma das agências mais incríveis e criativas do mundo e todo mundo da área daria um rim para trabalhar lá.
E eu, ao receber a notícia, apesar de absurdamente feliz, pensava “como ele conseguiu isso? Conheço gente premiada, renomada e genial que nunca chegou nem perto de algo assim!”.
Não importava. Mesmo não sendo o cara mais brilhante, mais criativo, ou o mais vanguardista do mundo, ele realmente havia conseguido o que 11 em 10 criativos do mundo almejavam. O pior aluno do curso e o mais desmerecido dos diretores de arte havia calado a boca de todos com uma conquista por seus esforços.
Para você ter idéia, não seria exagero nenhum dizer que essa agência está para a propaganda como a Ferrari para a F1.
Diariamente eu penso nessa história porque toda vez que acho que não vou conseguir ou que algo é muito mais do que eu mereco, penso no Henrique e lembro que ele me provou por “a + b” que, quando a gente luta com unhas, dentes, foco e sem medir esforços pelo que quer, consegue chegar lá pela porta da frente.

Moral da história (que, apesar do nome falso do portuga, é totalemente verdadeira): não amiga, você não vai ficar sozinha para sempre.
Não querido, você não vai ficar desempregado ou trabalhando com algo que odeia até o fim dos seus dias.
Não flor, você não vai ganhar mal eternamente.
Não fofura, aquela sua viagem dos sonhos não vai ficar no papel.
O Gajo me ensinou que, para mudar as coisas, basta saber conjugar três verbinhos simples e em português mesmo, a lingua do Henrique: QUERER, TRABALHAR, ALCANÇAR.

*(Só a título de esclarecimento, os criativos dessa agência foram responsáveis por algumas das campanhas mais famosas da Nike, Coca-Cola, Jeep, Levis e, esse ano, ganharam o Grand Prix do festival de publicidade de Cannes com o comercial de Old Spicy.)

Para ler ouvindo El canto del loco – Besos (a única música que eu me lembro dos meus tempos de Espanha)

One response to “A lição de moral do gajo do Porto

  1. Revisora do P...

    É só desejar e buscar com verdade que a gente consegue. Se o desejo for sincero, acontece.

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