*O causo do homem que encarava rostos e sanduíches

Era sábado a noite.
Carol, Bianca e Regina resolveram sair para beber e dançar numa típica girls night. Foram a um bar que tem nome de coisa escondida mas que deixou de ser segredo faz tempo. Ainda na fila combinaram que se uma delas beijasse alguém, as outras 2 esperariam juntas para não ficarem sozinhas e só então, quando a beijoqueira voltasse, estariam livres para paquerar.
Mal entraram na balada e dois caras abordaram Bianca e Regina. Eles pareciam ser interessantes e nesse momento o pacto de uma por vez foi desfeito.
Carol sobrou.
Sem muita alternativa foi ao bar, pediu um Hi-Fi e encostou na parede para olhar melhor o ambiente e pensar nas alternativas cabíveis.
Dançar sozinha? Não dava.
Ficar sentada num canto? Seria muito derrotista.
Se enfiar na paquera das amigas com os carinhas? O cúmulo da falta de semancol.
Enquanto ela pensava, observava atentamente a pista de dança. Foi no meio desse processo de pensa-observa-pensa que bateu os olhos em um cara moreno de cabelos ondulados e enormes olhos verdes.
Ele era lindo. Lindo não, g-a-t-í-s-s-i-m-o.
“Pronto –pensou – está tudo resolvido, é ele! O cara mais concorrido da noite é meu  ou eu não me chamo Carolina.”
Carol respirou fundo, estufou o peito e virou o drink com tanta pressa que poderia ter se afogado.
Decidida, foi ao banheiro, retocou a maquiagem e resolveu que era hora de colocar em prática uma tática que tinha aprendido com uma grande amiga.
O método era simples, consistia em encontrar uma mulher com uma bunda realmente grande e se colocar entre ela e o paquera. Feito isso era só deixar se atingir pela nádega gorda e cair em cima do sujeito.
 Segundo a amiga era infalível!
Dito e feito. Assim que a bunduda atingiu Carol a força foi tamanha que ela foi atirada nos braços do fulano.
Ele, com a maior delicadeza, a segurou e perguntou se ela estava bem.
– Sim, estou. Desculpe…
– Vamos sair daqui antes que você leve mais uma bundada dessas doidas que dançam, digamos, freneticamente.
Ela se agarrou aos braços do rapaz e foi conduzida para um local mais seguro.
– Você poderia ter se machucado…
– Eu poderia ter machucado você…
– Imagina, está tudo bem. Aliás, prazer, me chamo Márcio.
– Márcio, meu herói. Sou a Carol.
Os dois riram e ela aceitou o convite para ir para o lado de fora acompanhá-lo em um cigarro enquanto conversavam mais.
Descobriram que os ambos tinham cursado a mesma faculdade, se especializado na mesma carreira e que conheciam muita gente em comum.
Mas foi tanta esmola que o santo desconfiou.
De repente Márcio descambou a falar, falar, falar e falar.
Falou tanto que, quando o assunto acabou, começou a falar mal da carreira, de todos os conhecidos em comum, da faculdade, da ex namorada, da mãe e de tudo que pudesse ser mal dito.
Enquanto fingia que ouvia Carol olhava para ele e pensava “Meu Deus, será que vale o esforço?”.
Márcio ficou exatamente 2 horas e 14 minutos falando sem parar.
Carol tentava sair pela tangente – vou ali pegar uma bebida e já volto – mas ele grudava nela e ia junto.
Nada funcionava. Ela já tinha entendido que ia mesmo ter que ficar ali, com o cara mais lindo e mais chato do universo.
Quando ela finalmente consegui pegar o seu terceiro hi-fi, que era a única maneira de sobreviver aquele blá blá blá, já tinha perdido as esperanças de ser beijada. Mas foi nesse momento de desistência que Márcio, como que lendo seus pensamentos, tirou a bebida dela e apoiou o copo no bar. Em seguida grudou as duas mãos no rosto da moça, uma de cada lado, e começou a aproximar seu rosto do dela.
Carol começou a fazer um biquinho sutil, finalmente aquele esforço teria alguma serventia.
Quando os lábios dele estavam  quase encostando nos dela, Márcio parou e ficou encarando a coitada, presa entre seus dedos, sem entender nada.
Depois de encará-la por alguns minutos e declarar o quanto ele se sentia feliz por ter conhecido uma pessoa que também não ia com a cara de Gustavo, um ex colega de trabalho dos 2, finalmente aconteceu um beijo.
O beijo foi curto e Márcio começou abraçar  Carol, encurralando-a entre seus braços e seu peito. Ele só a soltava quando ela estava prestes a sufocar, exatamente como a Felícia fazia com os bichinhos no desenho animado.
Ela tentou reclamar, reagir. Enfim, fazer qualquer coisa para escapar, mas ele não deixava nem ouvia.
Márcio a puxou para fora de novo. Ela já estava cansada demais para não ir e deixou. Carol, que já estava realmente de saco cheio daquele cara, se entregou. Ela não tinha mais forças para lutar contra aquilo e, pra falar a verdade, ele beijava pouco, mas beijava bem.
Foi no meio do melhor beijo da noite que ele a empurrou com delicadeza.
– Espera. Sabe o que tá rolando? Eu acho que bebi demais… e não tô me sentindo bem. Preciso comer mas não quero ir sozinho… acho que minha pressão caiu, tô com medo de desmaiar. Vem comigo?
Ela suspirou fundo, olhou em volta e viu que atravessando a rua havia uma lanchonete Subway 24 horas.
Eram 4:30 da manhã e ele pediu um sanduíche de almondegas e uma Coca light.
Carol foi ao banheiro. Se trancou lá por algum tempo aproveitando seu primeiro momento de privacidade da noite e começou a mandar mensagens sms para todos que conheciam o sujeito, mas era muito tarde e ninguém respondeu. Ela não tinha como saber se ele era maluco ou só estava tendo um dia ruim.
Quando retornou do banheiro viu que Márcio estava com os olhos arregalados encarando o sanduíche, exatamente como havia feito com ela minutos antes.
– Ainda bem que você voltou. Gata, não vai rolar deu comer isso, tô malzão.
– E o que você quer fazer?
– Eu vou a pé até a minha casa.
– Mas você está péssimo, ainda vai desmaiar no meio da rua.
– Você pegaria um taxi comigo? Você tem razão, estou péssimo, não dá pra ficar sozinho…
– Um taxi?
– É. Eu moro aqui pertinho. Ele me deixa e te traz de volta pra balada. Pode ser?
Carolina era uma pessoa boa e ficou com pena de deixá-lo a própria sorte.
– Ok Márcio, ok.
A essa altura já passava das 5 da manhã e a rua estava deserta.
Andaram muito – ele, ela e o sanduíche embrulhado num saco plástico – até que encontraram um taxi.
Márcio deu seu endereço e depois que o carro andou uns 15 metros começou a gritar:
-Para, para! Eu tenho que descer, não estou bem. Carol, tá aqui, me cartão de consumação e minha pulseira de fumante. Paga lá pra mim que depois a gente acerta. Tchau!
Ele foi sumindo no horizonte enquanto ela se sentia a pessoa mais imbecil do planeta, do universo e de toda a galáxia.
Quando chegou na balada a corrida havia custado R$ 6.
Ela deu uma nota de 20 e o taxista devolveu 2.
– Moço, tá errado,  o senhor precisa me voltar R$ 14,00.
E o taxista respondeu:
– Então cobra do seu amigo porque eu não tenho troco e não sou palhaço de andar 15m só pra trazer a princesa até aqui. Aliás, você deveria tomar mais cuidado com os caras que beija, esse ai era um picareta. Agora desce do meu taxi que eu tenho corridas de verdade pra fazer.
Humilhada pela noite trágica Carol entrou, deixou as coisas de Márcio no cantinho do caixa para que algum funcionário encontrasse (definitivamente ela não ia pagar para ele), pagou sua parte e, desapontada com os acontecimentos, foi em busca de suas amigas. Só encontrou Regina que estava de carona pois Bianca havia  saído levando o carro e o seu paquera da noite. Revoltada Carol voltou para casa a pé pois não tinha dinheiro para outro taxi.

Para ler ouvindo David Lee Roth – Just a gigolo

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