O causo da tequila matutina

Os pais de Beatriz, italianos made in Italy que moravam no Brasil há 35 anos, sempre sonharam em ter uma filha advogada. E ela, para agradá-los, bem que tentou. Estudou direito por 2 anos e largou a faculdade para tentar a sorte e seguir o sonho de ser publicitária.
Eles, os pais, odiaram.
Fizeram chantagem, cortaram a grana e ameaçaram voltar pra Nápoles e nunca mais falar com ela. Mas Beatriz queria muito seguir essa carreira e foi trabalhar como garçonete para juntar um troco e pagar a escola de criação mais cara da cidade. Ela ralou muito e, as custas de muitas gorjetas e Miojo, conseguiu pagar a vista o curso que durava 2 anos.
Quando as aulas começaram Beatriz ficou entusiasmada. A escola era conceitual, as aulas exercícios psicológicos e as pessoas superinteressantes.
Um dia, quando o curso estava no meio, um professor chamado Patrick Augusto sugeriu uma prova diferente. As notas seriam dadas a partir de uma “performance”. Cada aluno teria que bolar alguma coisa para apresentar na frente dos colegas e disso sairia a sua nota.
Segundo Patrick, a intenção era perder o medo de apresentar uma campanha para o cliente.
Toda a turma comprou a idéia e se empenhou. Samantha, que era judia imitou sua família, Rodrigo criou uma música e a tocou no violão, Sandra contou piadas, Verônica fez mímicas dos colegas e um colega mais ousado montou um filme com o qual interagia ao vivo.
Finalmente chegou a vez de Beatriz, a última a se apresentar.
O nervosismo transpareceu. Sua mãos, trêmulas, seguravam uma garrafa e um copo de requeijão. No rótulo lia-se José Cuervo Gold. Beatriz puxou uma cadeira e sentou. Apoiou a garrafa na mesa, tirou a tampa, fez um sinal da cruz e começou:
– O processo criativo é realmente uma coisa delicada e difícil. Às vezes ele não vem. E é ai que você tem que encarar a página em branco…- ela ia falando e enchendo o copo – … e dai meus amigos, no desesperado você toma o primeiro shot!
Beatriz virou num gole só todo o conteúdo do copo, que passava da metade.
De olhos arregalados toda a classe protestou.
– Patrick, isso é tequila de verdade, tira o copo dela!
– Naaaada gente, é Guaraná!
E ela continuou:
– E você continua olhando a página em branco e toma mais um shot.
E lá se foi mais meio copo de requeijão.
Patrick assistia com atenção e curiosidade enquanto toda a sala resmungava em coro “vai dar merda!”.
Os colegas de Beatriz ainda tentaram mais uma vez fazer com que Patrick Augusto a fizesse parar, mas ele estava convicto de que na garrafa havia chá ou refrigerante.
E Beatriz não parava, continuava seu show enquanto a maioria dos alunos balançava a cabeça em discordância daquilo.
– Quando você está a beira do precipício vêm um começo de idéia e, para não perdê-la, pum! Você toma outro shot!
A apresentação de Beatriz durou exatamente 12 minutos.
Quando ela terminou, a garrafa já tinha menos da metade de seu conteúdo original. A classe, confusa, aplaudia e ria. Patrick, que adorava Beatriz e tinha achado tudo muito interessante, deu nota 9.
Eram 10:15 da manhã e todos desceram para o pátio. Os comentários eram sobre as performances alheias e o fim do semestre.
De repente Beatriz, que estava sentada em um banco, puxou Samantha pelo braço e olhou fundo em seus olhos.
– Sá, não tô me sentindo bem…
– Bia, o que você esperava depois de ter bebido mais de meia garrafa de tequila em 10 minutos? Você é louca?
– Sá, eu sou tímida, não ia conseguir sem beber…
– Bia, são 10 da manhã! Você ta ficando doida!
Beatriz começou a ficar pálida e Samantha pediu a ajuda de algumas colegas para levá-la até o banheiro.
Não demorou muito para Beatriz começar a passar mal e vomitar sem parar. Acontece que, mesmo naquele estado, ela ria, gritava e cismava em tirar a blusa e sair correndo de sutiã pelos corredores da escola.
Verônica, Sandra e Samantha não sabiam o que fazer e resolveram ligar para Julio, o namorado de Samantha que era, digamos, chegados a uma cachaça.
– Meu, a Beatriz tá maluca? Nem eu que, tenho fama de alcoólatra, consigo beber meia garrafa de tequila em 10 minutos! Vocês precisam levar ela pro hospital agora ou ela vai entrar em coma alcoólico. É sério, Sá, corre!
Desesperadas as meninas obedeceram e tentaram tirá-la do banheiro, mas ela se debatia tanto que foi impossível. Verônica correu para chamar ajuda e encontrou Rodrigo esperando preocupado na porta do banheiro.
– Rô, pelo amor de Deus, entra aqui e ajuda a gente a levar a Bia pro hospital. Ela ta péssima!
Assim que ele entrou no banheiro para pegá-la, Beatriz o abraçou e, em seguida, vomitou em cima do rapaz. Mas ele continuou firme na missão de salvador e foi em frente com a moça em seus braços. Beatriz segurava tudo o que via e gritava que não queria sair daquele banheiro que, a essa altura, já tinha um aglomerado de gente curiosa na porta.
Quando Rodrigo finalmente conseguiu tirar Beatriz do toalete, ela resolveu que era hora de fazer um streep tese e tirar a blusa.
– Gente, era tequila mesmo! Comentou Patrick que ajudava a aumentar a multidão do lado de fora.
E lá foram Beatriz, Rodrigo, Verônica, Samantha e Sandra pelos corredores da escola com ela a tira colo.
Quando chegaram no estacionamento da escola Beatriz se jogou no chão. Ficou lá, espatifada rindo.
Nesse momento Tito, outro professor, passou e perguntou o que estava havendo.
Foi Samantha quem respondeu.
– Ah professor, o Patrick deu uma aula de performance e a Beatriz resolveu que a dela era beber meia garrafa de tequila em 10 minutos.
– O quê? Vocês estão todos loucos? Beatriz, se a prova fosse se jogar de um barranco você faria isso? Ah, vá catar coquinhos, menina! Que decepção…
Beatriz ria e desdenhava de Tito enquanto, detida por Rodrigo, insistia em levantar a blusa.
O grupo rumou para o hospital dividido em 2 carros.
– No meu ela não vai! Eu que não vou limpar vômito dessa doida! – disse Samantha que era sem dúvida a mais brava da turma.
Beatriz foi no carro de Rodrigo com a cabeça pendurada para fora da janela caso passasse mal novamente.
Quando chegaram no pronto socorro um enfermeiro tratou de colocar Beatriz numa cadeira de rodas e começou a fazer a triagem. Ele escolheu Rodrigo para  responder suas perguntas.
– O quê ela tem?
– Porre.
– Às 11 da manhã?
– É.
– Mas ela bebeu a madrugada toda?
– Não.
– Em quanto tempo ela ficou assim?
– Exatos 12 minutos.
– Mas meu senhor, como ela pode estar nesse estado sem ter bebido a noite toda?
– É como eu estou te falando, ela bebeu meia garrafa de tequila em 10 minutos.
– Senhor, isso é alguma brincadeira?
– Juro que não.
– Melhor eu chamar o médico…
Quando o médico, um senhor japonês de idade avançada, entrou na sala não conseguia acreditar. Beatriz era uma menina linda e com cara de anjo. Aquilo só podia ser pegadinha.
– Olha garoto, toda madrugada eu atendo gente alcoolizada, mas às 11 e pouco da manhã é a primeira vez. Isso não é mesmo uma piada?
– Doutor, não é. Mas é uma longa história que o senhor não vai ter tempo de ouvir. Mas se quiser um conselho, além de glicose faça uma tomografia dela para ver de onde vem tanta loucura junta.
Beatriz ria, babava e vomitava no lixo da sala de espera.
A moça tomou glicose e soro na veia por 40 minutos enquanto os amigos esperavam do lado de fora sem acreditar no que estava acontecendo.
Quando o susto passou o grupo partiu e, por sugestão de Beatriz, foi para um restaurante comer feijoada.
Bia, que quase foi expulsa da escola depois do incidente, comeu bem e contra a vontade de todos ainda tomou um uma caipirinha.

No final das contas a história se espalhou por todas as agências de publicidade de São Paulo e, desde então, Beatriz se transformou numa celebridade que nunca mais teve qualquer problema para arranjar emprego.

Para ler ouvindo

Para ler ouvindo Jasmine Kara – In the basement (Etta James cover)

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