O causo do Xinguzão

Amanda estava cansada, havia trabalhado até de madrugada todos os dias daquela semana. Além do mais ainda não estava completamente recuperada da gigantesca fossa deixada pelo seu último pé na bunda.  Mas era sexta-feira e a vontade de sair com as amigas falou mais alto que todos os problemas.
Tomou um banho gelado para “pegar no tranco” e escolheu uma roupa despretensiosa. Jogou a blusa surrada e o jeans velho em cima da cama e analisou a combinação. Enquanto pensava em qual das suas Havaianas caindo aos pedaços iria melhor com o look, teve um presságio. Praticamente ouviu uma voz dizer “coloque algo bonito e capriche na maquiagem que você não vai se arrepender!”.
A coisa foi tão forte que ela resolveu obedecer.
Saiu de saia preta curta, blusa decotada cinza, botinha e rímel nos olhos.
Percebeu que havia acertado no visual quando entrou no bar e atraiu olhares de todas as mesas.
Sentou-se com sua amiga e as duas brindaram ao final de semana.
Em pouco tempo a mesa estava cheia de outras amigas.
De repente Amanda, que estava sentada de frente para a entrada do bar, avistou um homem que chamou sua atenção. Ele tinha cabelos castanhos claros e ondulados, olhos verdes tão transparentes quanto uma garrafa de H2O e vestia uma camisa branca que o destacava do resto dos homens, todos de camiseta,  que estavam no bar.
Amanda ficou paralisada por alguns segundos, catatônica.
De repente se viu imersa em pensamentos vagos sobre como era cansativo entrar em relacionamentos que não davam em nada, one nights stands e namoricos com homens lindos e mais vazios que um pastel de vento.
“Não! Definitivamente esta noite não é para conhecer ou paquerar, é apenas para beber com as amigas!” – Pensou enquanto tirava os olhos do sujeito e enchia outro copo com cerveja.
Amanda só voltou a si quando alguém chamou seu nome por 3 vezes.
-Amanda, Amanda, Amandaaaa…
– Hã?
– Este é o Fabio, um grande amigo meu.
Seria muita sorte ou muito azar ela estar sendo apresentada para o cara que havia prendido sua atenção e a levado tão longe há poucos segundo?
– Oi, prazer. Sou a Amanda.
Para o desespero dela, de perto ele era ainda mais bonito. Muito mais bonito.
Havia quatro cadeiras vagas na mesa, mas ele escolheu sentar-se justamente na que estava ao lado dela. Seu coração disparou e ela podia jurar que ouvira novamente a voz “eu não disse que iria valer a pena?”.
Enquanto Fabio conversava com Paola, a amiga que os apresentou, começou a dobrar a manga esquerda da camisa. Nesse momento uma tatuagem enorme foi se mostrando, milímetro por milímetro. Amanda ficava mais curiosa a cada novo pedacinho que aparecia.
Quando a manga chegou na altura do cotovelo ficou evidente que era uma tatuagem indígena, dessas feitas com urucum.
– Deixa eu adivinhar – perguntou Amanda – você é cineasta como todo mundo nessa mesa e está fazendo um documentário sobre os índios da Amazônia.
Ele riu alto e fez questão de olhar no fundo de seus olhos para responder.
– Quase! Sou jornalista especializado em temas antropológicos e sociológicos, como índios, genocídios em massa, posse ilegal de terras no norte do Brasil e afins.
Amanda achou aquilo muito chique e a conversa continuou por vias muito mais intelectuais do que uma noite de sexta-feira comporta em sua boêmia.
Fabio fez questão de conversar apenas com ela a noite toda. Contou que havia sido indicado aos melhores prêmios de jornalismo e que havia feito pós graduação em Paris. Depois disse o quanto era desagradável trabalhar em uma editora com outros 1000 jornalistas fúteis, como um fulano da revista especializada em público masculino que sempre descia com ele no elevador e perguntava “e ai, como vão os índios?” enquanto ele, quase que por educação sempre respondia “não tão bem quanto as bundas que saem na tua revista”.
O bar começou a fechar e ela achou melhor se despedir de todos, acertar sua parte da conta e sair à francesa, para não ter que se despedir de Fabio. Ele era bonito demais, interessante demais e ela acabaria envolvida demais. Além disso até o momento ele também era convencido demais e metido demais, mas Amanda sempre dava um desconto pois tinha uma teoria que todo homem inseguro imita um pavão quando quer conquistar alguém.
Mas além de tudo isso, das coisas boas e das ruins, ainda tinha um agravante: ele era jornalista e, por experiências anteriores, Amanda já sabia que dar pra jornalista vira manchete de primeira capa.
A tentativa de fuga não deu certo. Ele a viu e puxou seu braço.
– Onde tu vai, guria? (sim, além de tudo ele era gaúcho.)
– Vou embora. Já está tarde e eu tenho que trabalhar amanhã…
– Nada disso, vamos tomar mais um chopp, vai.
– Não dá, de verdade, meu chefe me pediu pra estar no trabalho amanhã às 9…
Nesse momento Paola apareceu e praticamente obrigou a amiga a mudar de ares. Pegaram o jeep tipo militar 4×4 de Fabio (além dos olhos verdes, da tatuagem indígena e do sotaque gaúcho um jeep? Amanda só podia estar sonhando) e foram parar em outro bar. A essa altura Amanda já estava agradecendo a Deus pelos 2 anos e meio de faculdade de Ciências Sociais que havia cursado. Sem eles seria absolutamente impossível entender sobre o que os dois jornalistas estavam conversando.
– Sabem, eu acho que chega um momento na vida de todo ser humano onde ele tem que escolher entre ser intelectual ou ser feliz. Eu escolhi ser feliz.
Foi com essa frase que ela conseguiu quebrar o gelo e fazer com que Paola entendesse o recado e fosse embora.
Quando finalmente conseguiu ficar a sós com Fábio, ele mudou. Deixou para trás todo o blá blá blá e ficou meigo e interessado em sua vida. Queria saber cada detalhe (especialmente os acadêmicos) e cada opinião dela sobre o mundo.
Conversaram por horas até que ele a agarrou. Foi surpreendentemente, esclarecedoramente e absolutamente… ruim.
O beijo dele era tão brochante quanto o cansaço que ela estava sentindo pelas horas de discussões filosóficas.
Depois de um dos beijos mais  chochos de sua vida, já estava amanhecendo e Amanda insistiu que precisava ir embora.
Ele a deixou em seu carro, pegou seu telefone, ligou para confirmar que o número estava certo e ficou mais de meia hora dizendo o quanto ela era linda, incrível e que ele fazia questão que um dia desses ela o acompanhasse em uma de suas viagens.
Já em seu carro Amanda sentiu que, mesmo depois de um beijo ruim, poderia se apaixonar por ele. Ele podia beijar mal (extremamente mal) mas era interessante.
No dia seguinte, depois de ir trabalhar, almoçar com os amigos e fazer supermercado, ela chegou em casa já de noite. Entrou na internet para ver os horários do cinema e levou um susto quando percebeu que Fabio já a havia adicionado no Facebook, no Twitter e no msn. Assim que ela o aceitou em todas as redes sociais do mundo, pulou uma janelinha em seu Messenger. Era ele.
– Linda!
– Como se diz oi em tupi, xavante, guarani ou seja lá qual dessas línguas você fala?
– Pode ser Kêtu, em xavante.
– Então Kêtu!
– Olha, tô indo pro Mato Grosso amanhã acompanhar uma expedição da National Geographic francesa, mas quero muito te ver hoje, pode ser?
– Ai Fabio, não sei, estou exausta…
– Por favor?
– Ok. Como você quer fazer?
Eu vou terminar uns textos que estou escrevendo para um jornal inglês e te ligo. Pode ser?
– Pode!
Amanda aproveitou o tempo que teria que esperar e foi dormir um pouco.
Quando acordou já era tarde e não havia qualquer evidência dele em seu telefone. Desapontada a moça ligou para uma amiga e foi encontrá-la em um bar. Assim que pisou lá foi convencida a mandar um sms para ele dizendo onde estava. O argumento da amiga era o de que havia ficado tarde e ele podia ter ficado com vergonha de incomodar. Ela concordou. A resposta chegou rápido. Levou menos de 50 segundos para ele dizer que estaria lá em 30 minutos.
Amanda esperou a meia hora, depois uma outra hora inteira e outra e outra e outra. Já no final da madrugada, desistiu.
Fabio nunca apareceu, nem para pedir desculpas pelo furo.
Amanda ficou tão magoada que o excluiu de todas as redes sociais da internet e jurou nunca mais sair com nenhum jornalista.
A explicação para o desaparecimento só veio cinco meses depois quando ela, num domingo preguiçoso, assistia ao Fantástico e o viu com sua mulher índia e 3 indiozinhos loiros em uma matéria com a Glória Maria e o Zeca Camargo.

Para ler ouvindo Pixies – Monkey gone to heaven

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