Um texto que levou 30 anos para ser escrito

 

Qualquer mulher que diz que fazer 30 anos não é um trauma está mentindo. Mentindo pra cacete!
Completar 3 décadas de vida foi certamente a experiência mais amedrontadora, desesperadora, e angustiante pela qual já passei. Deixar de ser a garotinha de 20 anos com a bunda empinada e a pele de seda num piscar de olhos é algo absolutamente confuso e perturbador. E olha que eu sou daquele tipo mignon que todo mundo jura que tem 24 anos.
Mas não importa a capa do livro, importa que, por dentro, é assim mesmo como estou falando. Você vai dormir na casa dos 20, sabendo que é uma garota gostosa e desejada com uma vida inteira pela frente e acorda na casa dos 30, começando a entender que o tempo está passando e que, se antes os homens corriam para os seus braços, agora vão correr de você porque tem a certeza mais clara e absoluta de que tudo que você quer, pensa, deseja e respira é casar e ter filhos. Mesmo que você não suporte crianças ou cogite ter que lavar as cuecas de um marmanjo.
Pior que a coisa toda não é um processo lento e que vem chegando aos poucos. É pá-pum, do dia para a noite. Tente se imaginar entrando num túnel sendo a linda Meg Ryan dos anos 80 e saindo de lá como a Mega Ryan de hoje. E eu não digo só estéticamente, a coisa é mais por dentro do que por fora. Afinal fazer 30 não é perder a validade, azedar. É simplesmente mudar quase todos os seus pontos de vista e deixar de ter paciência para coisas que exigem um pouco mais de infantilidade.
Acho que a questão é que a juventude traz tantas facilidades que a gente mal consegue perceber que um dia eles vão acabar. Mas em defesa dos mais novos, quando somos jovens não sabemos que temos tantos privilégios e muito menos que teremos tão pouco tempo para desfutá-los. Sabe quando a sua mãe dizia “filha, aproveite que você é jovem e use mais mini saia”, ou “filha, aproveite para namorar quem você quiser agora, depois vai ter que escolher e fazer dar certo” ou ainda “tá precisando de dinheiro para sair com a galera”? Pois é, é mais ou menos disso que eu estou falando.
Quando a gente está ali, na beira de fazer 30 anos, começa a notar uma certa dificuldade para emagrecer, muito diferente de antes, quando você dormia 8 horas numa noite e acordava exatamente com o seu peso ideal. E a cor natural dos cabelos começa a dar um certo espaço para luzes e tinturas que vão esconder os fios brancos que teimam em brotar sem mais nem menos. A academia de ginástica deixa de ser opcional para se tornar uma necessidade tão real quanto a daquele creme melequento para a área dos olhos que você precisa passar diariamente. A balada começa a ficar chata, meio sem sentido e um fondue com amigos passa a ser mais atraente. Aliás os gostos ficam mais sofisticados e, por consequência, você começa a sentir mais vontade de comer bem e beber coisas bacanas. Sai a jurupinga, entra o vinho tinto.
E, se você não for uma atriz da Globo ou uma magnata do mercado financeiro, começa a observar e chegar à conclusão de que todos estão melhor do que você profissionalmente. Somado a isso vem a sensação de que o mundo é um enorme berçario de filhos de amigos que nascem aos montes e são batizados com os nomes mais feios que você já ouviu. E os solteiros vão ficando mais raros e em alguns dias você nem tem com quem sair. Mas tudo bem porque ficar sozinha já nem chega mais a ser um problema, na verdade você começa a achar estranhamente necessário e gostoso.
E voltando ao papo lá de cima, sobre casar e ter filhos, a sua opção pode nem ser construir uma família tão cedo, mas parece que esse processo é um cerco que vai se fechando cada vez mais e do qual você, eventualmente, vai se tornar refém. Pelo menos é o que você sente quando percebe que se tornou uma aberração porque não se casou ou porque a sua carreira ainda não decolou enquanto todas as top models com a sua idade estão começando a se aposentar.
E tem aquela coisa de se tornar o centro das atenções, não mais porque ser a única da turma que não tem celulite, mas por ser a pessoa a quem todos querem apresentar alguém, normalmente aquele “cara bacana de 45 anos, divorciado e com 3 filhos, mas muito bem sucedido e atrás de uma boa esposa para cuidar dele e do lar”. Dessa parte eu tenho muita, muuuita preguiça.
Aliás, falando em preguiça, adoraria pular o tema relógio biológico, mas como se ele não para de urrar, socar e manipular cada molécula do seu corpo, fazendo com que você deixe de ter sonhos quentes com o George Clooney para de repente começar a sonhar com bebezinhos fofos. E desculpe, este item independe da sua vontade ou personalidade, não é opcional.
E nas conversar com as amigas ter marido passa a ser o ponto máximo do status, muito mais do que ser intelectual, descolada, rica, bonita ou bem sucedida.
Mas ter 30 anos também tem a sua beleza. É como se todo o tempo vivido anteriormente agora nos trouxesse de presente uma maturidade forte, intensa e uma sabedoria. E não existe mais aquela coisa de ficar pensando em ‘quem sou eu?’, ‘de onde vim e para onde vou?’. Você simplesmente é e sabe muito bem o que quer. Fica mais fácil tomar decisões e seguir adiante com elas. Acho que é um brinde, uma compensação pelo resto todo que vai ficando tão pequeno e sem importância conforme os dias passam. Pra falar a verdade eu já nem sinto saudades do resto todo. É tão bom ser mais eu, é tão bom saber que não se tem mais tempo para desperdiçar e, por isso mesmo, começar a usar o tempo, que teima em te mostrar que existe, como companheiro nos dias de solidão. E também é bom não se sentir mais uma garota que todos querem pela bunda e se tornar alguém que todos querem pela simples capacidade de ser mulher.

5 responses to “Um texto que levou 30 anos para ser escrito

  1. Nossa muitoooooo BOM, animal.
    Inclusive a forma de escrever.

  2. Brigada Danielle. Fico muito feliz que vocês estejam se identificando. É difícil mesmo essa mudança, né. Bjo

  3. Desculpe, mas achei uma grande bobagem…
    Eu já fiz 30 e já fiz 40 e me sinto tão mais feliz hoje do que quando tinha 20… Acredite ou não, até fisicamente me sinto mais bonita!
    Não foi trauma e não estou mentindo, como você afirma!
    Sinto muito se você, realmente, se sente assim!

  4. Claudia, sem problemas, não precisa sentir muito. Se você ler o texto até o final vai ver que eu relato o quanto estou feliz por ter 30 hoje em dia. Obrigada pelo comentário.

  5. Querida, acompanho o seu blog sempre. Acho que você é uma revelação em tudo. Escreve do jeito mais delicioso que já li e parece que entende a nossa alma. Obrigada por esse texto tão bem humorado sobre uma fase tão intensa da vida. Não pare nunca!
    Beijos

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