O causo do cretino cantador

A seguir uma história tão ridícula que eu não vou nem me dar ao trabalho de inventar um personagem para me substituir.

Um dia, já tem uns bons anos, meu primo resolveu que era hora de me arrumar alguém porque, segundo todo mundo, “A Sabrina estava ficando velha e encalhada”.
Até ai tudo bem, eu juro que já estou acostumada. Aliás estou tão acostumada que até achei graça outro dia quando uma amiga minha, dez anos mais velha e mãe de 3 crianças, me disse: “Sá, você já pensou em congelar seus óvulos? É melhor considerar, afinal do jeito que as coisas andam na sua vida… seria bom garantir”. Juro que ri. Amarelo, mas ri.
Mas voltando ao meu primo, para ele não bastava ser um alguém qualquer. Tinha que ser O CARA. E para ser tudo isso ele tinha que, claro, passar pelo crivo da família e ser um cara legal. Também tinha que ser descolado, ganhar bem, não ser tão feio ou pelo menos não ter o maior nariz ou as maiores costeletas do universo, e uma série de outros itens que não interessam para ninguém que esteja lendo isso ou sequer para mim.
Por quê disso tudo? Por que segundo ele, “eu sou coisa fina e mereço o melhor”. Tudo mentira! O que ele realmente queria era uma boa companhia para jogar poker quando eu frequentasse sua casa na praia aos finais de semana.
A questão é que, mais pela encheção de saco do que por interesse, concordei em aceitar o amigo tão sensacional que ele havia sugerido no MSN. Nos adicionamos, foi um momento tenso. O Nick do cara, me lembro até hoje, era “monday, monday”. Cliquei no nome dele e a janelinha abriu. Completei com o resto da letra da música com a frase seguinte do refrão “so good to me”. Depois de 2 minutos pulou uma resposta pensada. “Opa, já gostei de você!”.
E dai em diante ficamos uma ou duas horas papeando na frente do computador. Nos adicionamos no Orkut (em minha defesa naquela época nem existia Facebook), vimos as fotos um do outro e combinamos de sair. Confesso que até fiquei empolgada. Eu tinha acabado de sair de um relacionamento muito ruim e, na época, aquilo parecia fazer algum sentido.
Sobre o fulano em questão posso contar que ele não era nem feio nem bonito embora fosse baixinho, trabalhava como músico, tinha uma banda que estava ganhando fortunas tocando em casamentos, e alguns outros projetos paralelos já bastante respeitados. A prova disso é que marcamos de nos encontrar a primeira vez no show de uma amiga minha que é cantora e, quando eu contei para ela com quem ia, ela se dobrou em elogios ao trabalho dele.
Bom, como eu queria dar um beijo de boa sorte na minha amiga, ficou combinado que eu iria antes e o encontraria na portaria às 21 horas. E assim foi feito. Me arrumei bem bonitinha e cheguei com antecedência. Falei com a minha amiga e com toda a banda dela e fui para a porta esperar o cidadão. Fiquei 1h30 plantada e nada. Eu ligava, mas ele não atendia. Fiquei puta. Puta, não, putíssima!
Assisti o show inteiro deprimida. Minha amiga cantava olhando para mim e sorrindo e eu era incapaz de retribuir o carinho. Levar cano é o tipo da coisa que faz qualquer mulher murchar e duvidar de si mesma.

Assim que cheguei em casa fiz a única coisa que me restava:  liguei o computador e fui adiantar os trabalhos do dia seguinte. Mal acendeu a luz da tela e já pulou a maldita janelinha do msn “desculpa!”. Engoli em seco e respondi “ok”. Mas ele continuou “eu tive um imprevisto, foi mal… meu primo apareceu…”. A ladainha só parou quando topei sair com ele para uma segunda tentativa. Nessas horas que a gente olha para trás e vê o quanto éramos idiotas quando mais novas, impressionante.

O dia da segunda tentativa chegou. Me arrumei bonitinha de novo. Jeans, blusa preta, sapatilha, rímel nos olhos. A palhaçada estava marcada para às 20h mas quando eu já estava com o saco na lua de esperar, lá 21h30, chegou uma mensagem no meu celular “vou atrasar, não quer mesmo deixar para outro dia?”. Possuída de ódio respondi “se não for hoje não sera nunca mais!”.
Às 22h ele apareceu. Quando entrei em seu carro veio aquela pergunta mais cretina que um homem (aloooou homens, dica!) pode fazer “e ai, aonde vamos?”. Nesse momento senti uma reação involuntária dos músculos do meu braço começando a se contrair para fazer um movimento de soco na fuça do sujeito quando fui novamente tomada pela razão, educação e meiguice que me são peculiares: “qualquer lugar que esteja aberto”.
Seguimos para a Vila Madalena, o que foi uma grande vantagem. Além de ser do lado de casa pelo menos lá eu estava no meu território.
Sentamos em um bar vazio. Eu pedi um chopp e ele uma sopa de mandioquinha. Ambos nos fitamos por alguns segundos tentando entender o pedido alheio.
“Você bebe?”
“Não, só quando saio com os amigos. E você, sempre pede sopa de mandioquinha nos bares?”
“Não. Só quando já está tarde e eu estou com sono.”
E no decorrer da noite ele falou, falou, falou, falou. Em alguns momentos ele se gabava de ser um exímio músico (…), em outros contava vantagem por falar 5 línguas. Em outros momentos queria que eu ouvisse as músicas que havia feito para as ex namoradas (alooou homens, outra fica: nunca, jamais façam isso) e num outro momento mais crítico ainda queria saber o que eu achava sobre um carro da Citroen que custava R$ 170.000,00 e que ele queria comprar a vista.
A noite foi  das mais longas da minha vida e eu não tive uma única chance de abrir a boca para falar de mim.

Quando eu já não aguentava mais de verdade resolvi apelar. Como eu sabia que ele era um coxinha master daqueles que só gosta de mulher linda, perfumada e não solta pum nem faz coco, tive a brilhante idéia de tirar o maço de cigarros da bolsa.
“Desculpa, mas eu fumo. Você, que é músico e descolado, não se incomoda, né?”
E com os olhos arregalados ele respondeu “sim, me importo” e fez a coisa mais bizarra que qualquer cara com quem eu já tenha saído jamais fez.

O CARA PEGOU MEU MAÇO DE CIGARROS E O ISQUEIRO DA MINHA MAO E AREMESSOU NO MEIO DA RUA!

Espantada fiquei sem reação. Não sabia se esganava ou se salvava o meu isqueiro de estimação. Resolvi salvar o pacote tabagismo. Mas foi nessa hora que um carro passou e atropelou meu vício. L e n t a m e n t e. Cigarro por cigarro.
Quando voltei meu olhar para o panaca ele estava sugando a sopa e fazendo aquele maldito ruído “vrrrrrrrrrrrrrrrrr” que só as pessoas com mais de 80 anos fazem quando tomam líquidos.

“Bom, tá tarde, eu quero ir para casa” – disse eu.
“Ok. A conta ficou em R$15 para você e R$27 para mim”.

Paguei com raiva.
Ele pegou o carro para me deixar e mesmo sem congestionamento a Vila Madalena nunca foi tão parada. Aquilo lá parecia a eternidade no inferno.
Depois de 10 minutos que pareceram mais 10 horas chegamos. E no momento em que eu fui descer do carro ele me puxou “passa a mão aqui no meu pescoço. Sentiu? É um caroço. Eu fiquei doente, um curandeiro me salvou”.
Ele continuava puxando com a intenção de se aproximar do meu rosto para me beijar (porque afinal ele assassinou meu cigarro antes que eu pudesse dar uma única tragada).
Sem entender nada simplesmente respondi “que pena que as coisas deram certo com o curandeiro!” e sai do carro disparada para entrar em casa.

E se você acha que a humanidade se livrou desse banana para sempre saiba que ele está de casamento marcado com uma antiga VJ da MTV e ainda por cima vai tocar no casamento da minha irmã (mais nova) no mês que vêm. E pior! Outro dia eu estava fuçando o iPod do meu namorado e vi todo um set com as músicas dele.
Ninguém merece.

Para ler ouvindo The Specials – Rudy, a message to you

3 responses to “O causo do cretino cantador

  1. Beth Gonçalves

    Valeime! Quanto azar! Amo o blog! Beijo grande

  2. simplesmente SENSACIONAL! Acompanho, recomendo e dou muita risada com teus textos! Comentando este post específico: realmente, vc deve ser educadíssima, se um individuo desses fizesse isso com meu cigarro eu virava a maldita sopa na cara dele! e olha que já teria precedentes!! me deixar esperando? JAMAIS!!
    beijos, queridona!!
    Continue nos envolvendo e nos deixando mais alegres com teu blog!!

  3. Daiane, não te conheço mas você é uma fofa! Te mandei um e-mail. Brigada pelas palavras. Beth, obrigada também. E pois é: VALEI-ME! Beijão

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