Quem tarô tarô quem não tarô não tara mais

Disseram que a tal Marly era a melhor, a mais formidável e incrível taróloga do mundo.
Depois de tantos superlativos, não existia a hipótese da minha pessoa deixar de conhecer a tal gurú, a versão 2.0 da Mãe Diná.
Pra falar a verdade, achei bem esquisita a facilidade pra marcar um horário. Grandes tarólogas (e eu já fui em várias) costumam ter lista de espera e, muitas vezes, até secretárias para dar conta do recado.
A questão é que a recomendação era tão maravilhosa que nem assim dei chance pra desconfiança.
Liguei na terça, marquei pra quarta.
Como todas as tarólogas do mundo, a Marly atendia no fim do mundo. Mas isso também não me parecia um problema já que, desde que comprei meu GPS, não tem assunto esotérico que consiga se esconder de mim.
Depois de quase uma hora dirigindo, cheguei no endereço que me havia sido passado. Para a minha surpresa e, ao contrário das expectativas, a Marly morava super bem. O prédio dela era bonito e ficava numa rua bacana e arborizada.
Quem abriu a porta da cobertura duplex foi a empregada de uniforme engomado. A casa, meio cafona mas muito arrumada, tinha no ar um delicioso aroma de almoço, que me fazia lembrar que eu mesma não ia comer para poder estar ali naquele horário.
A empregada me colocou sentada numa salinha íntima, de onde dava para ver uma grande árvore de natal. Quando olhei para a base da árvore vi, além dos presentes, 3 livros do Paulo Coelho embrulhados com uma fita vermelha. Nessa hora não teve mais jeito, a intuição gritava em alto e bom som no meu ouvido: ROBADA!!!
A espera do chamado e temendo atrasos por estar no rodízio, me aninhei no sofá da salinha como quem espera a hora de tomar uma injeção. Depois de uns 10 minutos a Marly me chamou.
– Pode subir!
Subi, degrau por degrau, a longa escada em caracol que dava para uma espécie de “cobertura gourmet”. Finalmente eu estava cara a cara com aquela mulher de uns 55 anos, cabelos encaracolados curtos, blusa branca de algodão, saia rodada e pantufas.
Marly não era bonita. Tinha olheiras profundas, um nariz desproporcionalmente grande para o resto do rosto e uma pele que denúnciava uma fumante convicta.
– Como você se chama?
– Sabrina.
– Qual a data de nascimento?
Ela anotou tudo e começou a fazer contas.
– A soma do seu nome dá 5. Quase que você atinge 6, que é a espiritualidade absoluta. Já o seu aniversário dá 9. Isso quer dizer que no meio do ano que vem você fecha um ciclo.
A preguiça de ouvir essas coisas que eu sei de cór ia tomando conta de mim, mas continuei firme e muda, afinal ela não tinha culpa deu entender um pouco sobre o assunto. Na verdade enquanto ela falava, eu ficava encarando o baralho.
Era um Tarot de Marselha desses, que são vendidos nessas lojinhas de shopping, cheias de incensos e gnomos. Enfim, as cartas dela não tinham bossa nenhuma e isso me preocupou muito mais do que os livros do Paulo Coelho já que, por experiência, sei bem que tarólogos sérios costumam ter tarôs antigos, caindo aos pedaços e muitas vezes até herdados de outras cartomantes.
Mas nem assim eu desanimei. Depois da interminável explicação (cheia de erros de cálculos) sobre a minha data de nascimento, ela me pediu para colocar uma mão, tanto fazia qual, em cima do baralho e cortar o bolo em três.
Continuei muda e fiz tudo que ela mandou.
Enquanto eu colocava minha energia nas cartas, Marly pousou sua mão sobre a minha, fez uma careta tipo Woopy Goldberg em Ghost e começou:
– Tem um homem na sua vida… – e me olhava como quem busca confirmação – … e ele é estrangeiro.
Ainda dei um desconto achando que a interpretação podia ser por conta do meu namorado estar passando uma temporada profissional em Brasília. Achei melhor permanecer calada e sem esboçar qualquer feição.
– E você vai ficar grávida desse homem. Não, espere… você já está grávida!
Tive vontade de contar para ela que eu estava menstruada, morrendo de cólica. Mas mais uma vez permaneci calada.
– Não tire esse filho! O pai dele tem muito dinheiro e isso vai mudar a sua vida. Outra coisa, você precisa ter mais pé no chão, menina.
Mais uma vez tive vontade de contar pra ela que sou conhecida por ter os pés fincados no chão e ser extremamente racional.
E ela continuava:
– E você vai receber uma proposta de sociedade. E vai ser ótimo já que o seu sonho sempre foi ter o seu negócio!
Também não comentei com ela que eu sou dona do meu próprio negócio há três anos e que o meu sonho era voltar a ser empregada pra não ter mais dor de cabeça.
– Você também tem uma sogra horrível. E a sua sogra vai fazer da sua vida um inferno.
Nessa hora fiquei confusa. Como eu podia ter uma sogra se eu estava tendo um caso com o estrangeiro mais fértil do mundo, que me engravidou em pensamento?
Depois desses vinte minutos de ladainha (e acredite, teve muuuito mais ladainha) eu já estava pensando em um jeito de dizer “gata, acabei de lembrar que tenho uma reunião. Deixa eu te pagar e cair fora?”. Mas a mulher era uma metralhadora e continuava…
– E você é a filha mais nova de um lar desfeito. Por isso traz traumas das brigas que via entre seus pais…
Pô, depois dessa eu não aguentei, não tinha como. Sem nem me mexer, educadamente rebati:
– Olha, na verdade meus pais são casados há 37 anos e se amam muito. Meu pai é o homem mais apaixonado que eu já vi e, desculpa te contrariar, mas eu sou a filha mais velha de um casal que nunca, jamais brigou na minha frente.
– Ah, mas isso é o que você acha. Por exemplo a minha vizinha… eles são casados há 30 anos, tem uma vida maravilhosa. Mas dai ela vira as costas para viajar e ele enfia um monte de mulher em casa.
De novo me vi obrigada a responder:
– Tá, pode ser. Mas o meu pai jamais faria isso e por ele eu coloco a mão no fogo.
Ela me olhou fixamente, bem dentro dos olhos. Recolheu as cartas da mesa e perguntou:
– Você quer continuar a leitura?
– Olha Marly, não sei. As coisas não estão batendo muito…
Ai ela levou pro pessoal. Levantou da cadeira e com mágoa (ou raiva, sei lá) olhou novamente nos meus olhos e começou a vomitar um discurso:
– Eu sou engenheira, psicóloga e tenho mestrado em semiótica. Eu não tiro o tarô porque preciso, tiro porque tenho vidência. V-i-d-ê-n-c-i-a, tá entendendo? Em 16 anos trabalhando com isso nunca vi uma pessoa tão despreparada para ouvir as coisas que eu tenho a dizer. Você veio aqui para buscar um desafio, para me tirar do sério… e tem mais, agora quem não quer continuar sou eu! Eu não quero mais abrir o jogo para você porque meus guias estão dizendo que você está fechada, que não quer ouvir a verdade… você não acredita em nada, o seu coração é vazio e a sua fé muito vaga…
Enquanto pegava a carteira na bolsa, interrompi o blá blá blá.
– Tá bom. Quanto eu te devo?
– Nada! Eu não quero o seu dinheiro.
– Tem certeza?
– Se você não sabe ouvir minhas palavras, eu também não quero o seu dinheiro.
Dei de ombros e enfiei a carteira de volta na bolsa. Quando voltei o olhar para a Marly, ela apontava pra escada e só abaixou o braço depois que eu me encaminhei para lá. Eu desci e ela desceu atrás de mim, com passos pesados e bravos. Depois disso, abriu a porta e, novamente apontou para fora. Chamei o elevador e, assim que ele chegou, ela bateu a porta com força na minha cara.
E eu voltei rindo, gargalhando. Do fim do mundo até Pinheiros.

Para ler ouvindo – Flight Facilities -Foreign Language

One response to “Quem tarô tarô quem não tarô não tara mais

  1. Rachei o bico! Rsrsrsrsrsrs

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