High Five

Quando você se dá conta, a presença daquela pessoa já se espalhou pela sua vida e pela sua casa que nem mato.

É uma camiseta preta desbotada “vou deixar na sua casa pra usar de pijama” secando no seu varal, uma escova de dentes amarela com cerdas laranjas “essa marca é a melhor de todas, não machuca as gengivas. Você devia testar, gatinha” no seu banheiro, uma toalha velha e puída esquecida na lavanderia “usei hoje na academia, posso deixar aqui pra lavar?” um par de havaianas número 42 estacionadas ao lado da porta da entrada “já que vou ter que trabalhar domingo, vou de chinelo”, uma caixa de lentes de contato “me lembra de tirar antes de dormir, meu amorzinho?”, um desodorante “ok, eu me rendo. Sei que seu ex usa o mesmo, mas eu gosto do cheiro.” e mais uma cueca furada esquecida na poltrona do quarto, algumas meias que, nem de longe são 35, seu tamanho, guardadas por engano pela faxineira na sua gaveta, o iogurte grego (que você acha muito gorduroso mas ele adora) na geladeira, os bagles da wikibold (que você não comeria normalmente porque engordam) que ele ama, um papel impresso com alguma coisa do trabalho dele na mesa de jantar, um guarda chuva (que mais parece um guarda sol) junto ao bar da sala, a fatura do cartão de crédito com a sua parte de algum jantar e de um ou dois almoços e o travesseiro que ele gosta, que ainda está com o cheirinho dele.

Lá tem um demaquilante na pia do banheiro “vou deixar esse que é mais vagabundo, só pra quando precisar mesmo”, seu creme para as mãos no criado mudo “não consigo dormir sem passar creme pras mãos, é mania”, um pijama velho esquecido na cadeira “trouxe esse aqui pra ver se você me ama até de pijama furado”, uma escova de dentes cor-de-rosa colada em outra, azul-escuro “poxa baby, você não acha que já é tempo deu ter uma escova decente aqui?” e um monte de DVDs que você emprestou (e nunca mais vai ver de volta) empilhados na sala “não acredito que você não viu The Doors, do Oliver Stone!”.

E daí, quando você olha pra essas coisas, percebe que elas já não cabem mais num saquinho de super mercado. E que, mesmo que você junte todos esses pecinhas de uma história numa sacola de papel bem grande, de alguma loja chique, sempre tem uma tarracha de brinco, um aparelho de barbear, um elástico de cabelo ou um pacote de camarão congelado no fundo do freezer que vão estar a espreita, só pra mostrar que a presença daquela pessoa ainda está por ali, querendo voltar.

Para ler ouvindo Guns n’ Roses – Patience

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