#FORAFELICIANO

“Sabrina, por quê você está vestindo a camisa do movimento gay se você é 100% hétero?” – perguntou um amigo meu – “Vão achar que você mudou de lado, que saiu do armário, pensa nisso!”.
Respondo então publicamente para essa pessoa que, eu sei, fez com bom coração mas foi extremamente infeliz em seu questionamento.

Quando o partido nazista tomou o poder, a maioria esmagadora dos alemães não se posicionou. Exterminar os judeus, ciganos, gays (sim, os gays também estavam no pacote), negros, ativistas políticos e qualquer outra minoria só ia trazer “avanços e benefícios” para o país. “Eliminar o mal pela raiz” era a solução de todos os problemas. Esse era o discurso do partido e as pessoas achavam que não tinha problema nenhum sacrificar (literalmente) os outros já que isso ia de acordo com os seus interesses. Talvez, como alguns historiadores defendem, a maioria não tivesse conhecimento dos campos de concentração. Pode até ser. Mesmo assim, todo mundo sabia que essas minorias sumiam embarcadas nos trens e nunca mais voltavam. Até hoje quando as pessoas perguntam “afinal, qual era a razão que Hitler alegava? O que ele tinha contra os judeus?” ninguém sabe ao certo responder. Não havia um argumento palpável, era apenas ódio em forma de discurso inflamado na figura de um führer que prometia ser a salvação de um país com problemas. O povo fechou os olhos e entregou seu futuro nas mãos de um governo fascista. Deu no que deu.
Também poderia citar a ditadura militar, onde quem pensava diferente, era morto e torturado, mas acho que já me fiz entender.

Hoje, 74 anos depois, vejo um movimento assustador de intolerância chegando em um tsunami que está devastando a minha crença na humanidade. Um idiota sobe ao poder se fazendo passar por “um homem de Deus” e usa os argumentos mais cretinos contra os gays, fazendo vir a tona o pior que um monte de ignorantes tem dentro de si. Depois dele, tenho visto pessoas esclarecidas e estudadas falarem para quem quiser ouvir que acham o homossexualismo um horror, o fim dos tempos. Chegamos em um ponto onde garotos, alunos de colégios caros, saem a noite para agredir travestis e “bichas” sem sequer considerar que eles são seres humanos, exatamente como eu, você e todas as pessoas do planeta. E tudo isso sob qual argumento? “Não é natural”, “Deus não criou o homem para isso”, “Não existe homossexualismo entre os animais”.
Gente, atenção! A coisa tá ficando perigosa. A tal bancada evangélica, tão pura, casta e cheia de moralismo, está se multiplicando e colocando as manguinhas de fora. E o mais curioso, é que esses pastores-políticos que dizem que Deus que prega contra o homossexualismo, omitem a base de toda a religião: o amor acima de todas as coisas.
E calma lá… o Brasil não era um estado laico (pelo menos na teoria)? A gente não enche a boca pra dizer que aqui a diversidade convive em paz e que somos o único país onde todos os povos se dão bem? Se é assim como é possível que um homem como Feliciano, um fascista em pele de evangélico, nos represente?
Como eu já disse, sou mulher, solteira, judia, sincretista (frequento e acredito em outras religiões), publicitária, uso óculos, tenho cabelos enrolados e um monte de amigos gays. Só aí já são 8 grupos de minorias. Hoje são os gays… amanhã podem resolver que pessoas obesas são um mal para o Brasil. Por isso, meu amigo querido que está tão preocupado comigo e me perguntou aquilo, eu te digo: você que é homem, católico, hétero, advogado e careca: sim, estou levantando uma bandeira para defender os direitos de uma causa que, sem dúvida eu apóio, mas na qual eu não me encaixo. E faço isso não só pelos amigos gays que tanto amo, mas também porque, um dia quem sabe, podem mexer no que é meu. É simples: para ser vítima desses caras, só precisa mudar a mira.
Se você quer saber, eu também acho horrível quando vejo 2 homens ou 2 mulheres se beijando ou se tocando com mais intensidade no meio da rua. Exatamente como eu acho nojento quando um casal hétero faz isso.
Agora, o que cada um faz dentro de sua própria casa, definitivamente não é problema meu. Nem seu. Especialmente se isso não fizer mal para ninguém.

Moral da história: o amor não agride, já a intolerância, o preconceito e o absuo do poder, sim.

#forafeliciano #foratotalitarismohetero #vivaasdiferenças #somostodosiguais

Para ler ouvindo Lily Allen – Fuck You

2 responses to “#FORAFELICIANO

  1. Ângela Monteiro

    Li seu texto compartilhado no facebook de um amigo. Concordo com você em tudo e achei extremamente pertinente a analogia com o nazismo. Realmente acho que existe um totalitarismo hetero, que nao aceita diferenças. Creio que infelizmente as coisas só tendem a piorar já que temos visto freqüentemente passeatas anti gays mundo pelo mundo. Acho tudo isso muito tacanha e retrogrado. Uma verdadeira imbecilidade. Como você diz com muita propriedade, o amor nao agride, a intolerância sim. Peço licença para compartilhar seu texto brilhante. Parabéns! Um abraço, Ângela.

  2. Obrigada Angela. Que bom que gostou, fico muito feliz.

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